5 maneiras de parar a disseminação do estigma sobre o coronavírus

30 de abril de 2020

Um efeito colateral evitável da pandemia é a discriminação. Veja aqui como você pode ajudar a interromper esse mal.

A COVID-19 está gerando medo, estresse e incerteza entre pessoas de todo o mundo. E infelizmente, a crise global da saúde também está espalhando um outro tipo de contágio: o da estigmatização.

Em diversas partes do globo, aqueles que têm o vírus (ou que foram expostos a ele) enfrentam agora discriminação, rejeição e preconceitos. Os primeiros casos de COVID-19 foram descobertos em Wuhan e atualmente pessoas de ascendência chinesa ou asiática se tornaram alvo de insultos racistas e até ataques físicos. No Brasil, essa reação não é diferente. Nas últimas semanas diversos profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros têm sido hostilizados e até agredidos a caminho dos hospitais em que trabalham. Muitos moram longe e utilizam o transporte coletivo, o que assusta muitos passageiros.

A disseminação de preconceitos é uma tendência desanimadora que atingiu não apenas as comunidades locais, mas também abalou especialistas em saúde global. Tedros Adhanom Ghebreyesus, PhD, diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), manifestou sua preocupação durante uma de suas coletivas à imprensa. “É tão doloroso ver o nível de estigma que estamos observando”, disse ele, “e a discriminação, para ser honesto, é mais perigosa que o próprio vírus.”

Mas por que a pandemia provocou estigma? 

“O estigma e a xenofobia são comuns quando enfermidades como a COVID-19 aparecem”, diz Ron Barrett, PhD, antropólogo e médico do Macalester College em Saint Paul, Minnesota, cuja pesquisa inclui os aspectos sociais das doenças infectocontagiosas. Como a pandemia causa perturbações na vida cotidiana e ansiedade, leva ao estigma por várias razões, dentre elas:

O medo do desconhecido. A história desse vírus ainda está sendo escrita. O SARS-CoV-2 foi identificado pela primeira vez em dezembro de 2019, portanto os riscos e efeitos da doença ainda estão sob investigação.

Por exemplo, estabeleceu-se como grupo de risco para complicações graves ou risco de morte pelo coronavírus pessoas com idade igual ou maior a 65 anos e indivíduos com um sistema imunológico enfraquecido ou condição de saúde subjacente. Mas os cientistas ainda estão aprendendo sobre a infecção, e pesquisas em andamento mostram que mesmo jovens entre 20 e 54 anos podem necessitar de hospitalização e até internação em UTI’s, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

A falta de controle. Não existe vacina para prevenir a COVID-19 e os testes ainda são caros e escassos para serem feitos com toda a população. Por este motivo não há como saber quem tem ou não a doença.

Sentir-se relativamente impotente diante de muitas incógnitas causa ansiedade, o que pode levar a preconceitos. Uma das maneiras pelas quais as pessoas tentam encontrar o controle é transformar o medo em raiva e culpa. Se você acredita que a doença só acontece com os outros, acaba se sentindo menos vulnerável, explica Barrett. Mas, diferentemente desse pensamento, o vírus não discrimina. Não importa se é asiático, americano, brasileiro, rico ou pobre. Celebridades, atletas, membros do governo e até a realeza estão testando positivo. O príncipe Charles, herdeiro do trono britânico, anunciou que possui o novo coronavírus.

Os efeitos nocivos do estigma 

“Além da intolerância, exclusão e discriminação, o estigma pode ter efeitos diretos na saúde psicológica de uma pessoa, causando estresse e, em alguns casos profundos, até auto aversão”, diz Barrett. Tais atitudes também podem piorar a propagação da doença das seguintes maneiras:

  • As pessoas podem tentar ocultar sinais e sintomas e evitar assistência médica por medo de serem expulsas;
  • Os profissionais de saúde, alvos de agressões frequentes, podem se amedrontar e deixar de tratar os pacientes;
  • Indivíduos com o vírus podem não cooperar com as autoridades, dificultando o “rastreamento de contato”. Se houver estigma associado à doença, é menos provável que os infectados compartilhem informações em um esforço para “proteger” pessoas próximas, diz Barrett.

Como parar o preconceito

Pôr um freio no estigma torna as comunidades mais coesas e resistentes. Veja como você pode fazer sua parte e ajudar a dizimar esse mal.

Chame o vírus pelo seu nome real.

O nome oficial do coronavírus é COVID-19. “CO” significa corona, “VI” é vírus, “D” quer dizer doença e 19 marca o ano em que foi descoberto: 2019. Não o chame de vírus chinês, vírus Wuhan ou qualquer outro nome que associe um local ou etnia ao vírus. Embora ele tenha se originado na China, esses nomes causam mais estigma e alimentam o racismo de forma injusta.

Lute contra o medo com fatos.

Evite palavras como catástrofe, apocalipse ou peste. Não repita ou compartilhe rumores sobre COVID-19 nas mídias sociais. Visite fontes respeitáveis, como a página da Sharecare sobre a doença, o site o Ministério da Saúde ou da OMS para obter informações precisas sobre a pandemia.

Fuja da vitimização.

Fale sobre aqueles que foram contagiados como “pessoas com COVID-19”, e evite chama-las de vítimas. Não diga que alguém “espalhou o vírus”. isso implica intenção de disseminar a doença e atribui culpa.

Estenda a mão.

Se você conhece alguém que tem COVID-19, mostre alguma empatia. Se eles se sentirem bem o suficiente, faça uma ligação ou configure um bate-papo por vídeo. Ofereça levar uma refeição para a família ou demais pessoas em quarentena e deixe-a na porta da frente. Lembre-se que se isolar dos demais é um ato de amor ao próximo e proteção de toda uma comunidade.

Reverencie aqueles que estão nas linhas de frente.

Diversos profissionais da área da saúde e outros prestadores de serviços essenciais colocam-se em perigo todos os dias. Uma escassez nacional de equipamentos de proteção, incluindo máscaras e álcool em gel os expõem ainda mais. Por isso, agradeça a eles por sua dedicação inabalável ao bem-estar de toda a população.

Use máscaras

No começo do surto, a máscara deveria ser usada apenas por aqueles com suspeita ou com o diagnóstico confirmado da doença. Com o tempo, no entanto, autoridades de todo o mundo perceberam que o uso deste EPI pela população em geral poderia ser um forte recurso na luta contra a propagação do vírus, já que a cobertura do rosto reduz a transmissibilidade.

As máscaras hospitalares descartáveis, embora promovam maior proteção, devem ser reservadas para os profissionais da saúde. Já as feitas com tecido podem ser utilizadas por todos, sempre que precisarem sair de casa. Mas lembre-se: mesmo que caseiro, este EPI é individual. Isso significa que cada um deve ter o seu. O recomendado é ter no mínimo dois.

Estamos todos juntos nessa.

Se por acaso adquirir o vírus, saiba que não está sozinho. Você está entre a maioria dos seres humanos que podem contrair essa doença. De fato, todos nós podemos.

“Temos um inimigo comum neste planeta”, disse Tedros em coletiva oferecida à imprensa. “Temos que ficar juntos em uníssono para combater esse mal.”

Revisado clinicamente em Abril de 2020.

Fontes:

Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). “Estigma social associado a COVID-19.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). “Coronavírus 2019 (COVID-19): perguntas frequentes.”

Organização Mundial de Saúde (OMS). 2 de março de 2020. “Conferência de imprensa sobre COVID-19.”

Sabrina Tavernise e Richard A. Oppel Jr. Jornal New York Times. 23 de março de 2020. “Cuspir, gritar, atacar: chineses temem por sua segurança.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). “Coronavírus 2019 (COVID-19): pessoas em maior risco de doença grave.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 12 de fevereiro a 16 de março de 2020. “Resultados graves entre pacientes com coronavírus 2019 (COVID-19). “

Johnny Diaz e Derrick Bryson Taylor. Jornal New York Times. 26 de março de 2020.”Celebridades, atletas e políticos que testaram positivo para coronavírus.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). “Coronavírus 2019 (COVID19): Reduzindo o estigma”.

A organização mundial da saúde (OMS). “Rastreamento de contato”.

Ashley L.Greiner, Kristina M.Angelo, Andrea M.McCollum, et al. Revista Internacional de Doenças Infecciosas. Volume 41, dezembro de 2015, páginas 53-55. “Enfrentando desafios de rastreamento de contatos – fundamental para interromper a transmissão da doença pelo vírus Ebola”.

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). “Fornecimento de cuidados de saúde para equipamentos de proteção individual.”

Aiuri Rebello. UOL São Paulo. “Profissionais da saúde são agredidos a caminho de hospitais em São Paulo”[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]