A COVID-19 é transportada pelo ar? Tudo o que você precisa saber sobre este tipo de propagação.

By 8 de setembro de 2020Covid 19

Em Julho deste ano, um grupo de 239 cientistas divulgou um manuscrito intitulado “É hora de abordar a transmissão aerotransportada da COVID-19”, no qual defendiam medidas preventivas para impedir a disseminação do SARS-CoV -2. Em resposta, três dias depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou seu resumo científico incluindo mais informações sobre como o vírus se espalha. Mas a pergunta continua: é possível o contágio pelo ar?

A razão pela qual tem havido tantas idas e vindas sobre esse assunto é porque esta é uma pergunta realmente difícil de responder. O SARS-CoV-2 foi sim encontrado no ar, mas principalmente em configurações laboratoriais (não no mundo real). Além disso, sabemos que em certas situações o vírus pode ter sido transmitido por via aérea, mas outras hipóteses de transmissão nestes casos também são plausíveis.

O mais provável é que sim, o SARS-CoV-2 esteja no ar, mas apenas em circunstâncias limitadas. Para entender melhor essa afirmação, vamos nos aprofundar na questão e conhecer um pouco mais sobre como o vírus se espalha.

Como o coronavírus é transmitido?

Os cientistas geralmente reconhecem que o SARS-CoV-2 se espalha por duas rotas principais: gotículas e fômites.

  • Gotículas: Também conhecidas por gotículas respiratórias, são partículas minúsculas expelidas da boca ou nariz quando uma pessoa tosse, espirra ou fala. Depois de deixar o corpo, as gotas podem cair no chão a poucos metros do indivíduo.
  • Fômites: Objetos inanimados que podem conter partículas de vírus. Por exemplo, se alguém com COVID-19 tossir na mão e, em seguida, tocar a maçaneta da porta, esse objeto é um fômite que pode estar coberto com SARS-CoV-2. Ao tocar na maçaneta e, em seguida, levar a mão a boca, nariz ou olhos, há um risco de infecção.

Até agora, as recomendações do governo e da saúde pública têm se baseado principalmente nesses dois modos de transmissão. Enquanto utilizamos a máscara e mantemos o distanciamento social para evitar a contaminação por gotículas, lavamos as mãos com frequência e passamos álcool em gel para prevenir a disseminação por fômites. Contudo, cientistas e a OMS estão considerando outro possível agente transmissor: os aerossóis.

O que há de novo?

Você pode até achar que tanto as gotículas quanto os aerossóis são formas de “transmissão aérea”, mas na verdade existe uma grande diferença entre os dois. As gotículas são maiores que cinco mícrons, enquanto os aerossóis são menores que cinco mícrons. Apesar de ambos serem extremamente pequenos (um mícron equivale à milésima parte do milímetro, sendo, portanto, um milionésimo do metro), a diferença de tamanho impacta fortemente no comportamento. Por serem maiores, as gotas são mais afetadas pela gravidade que pelo ar, o que significa que caem ao solo após percorrerem uma curta distância. Por outro lado, os aerossóis são capazes de permanecer no ar por muito mais tempo em vez de cair no chão, talvez até 16 horas.

Quando se fala em transmissão de doenças, as gotículas são consideradas uma forma de contato direto, uma vez que é necessário estar a uma certa distância de alguém para ficar exposto. Aerossóis são considerados uma forma de contato indireto, já que as partículas ficam suspensas no ar mesmo depois que uma pessoa contaminada tenha saído. Isso torna os aerossóis mais difíceis de evitar.

As doenças comuns que se propagam por meio de aerossóis incluem tuberculose, sarampo e varicela. E se você está se perguntando de onde vêm os aerossóis, há duas respostas. Eles podem ser criados diretamente e ao mesmo tempo que as gotículas ou se formar quando as gotas evaporam parcialmente, tornando-se menores.

Os defensores da ideia de que o SARS-CoV-2 pode ser aerossolizado estudam tal possibilidade porque há evidências de ocorrência de transmissão aérea. Contudo, esses locais também têm algo mais em comum: havia oportunidade para o vírus ser transmitido por gotículas ou fômites também. Portanto, embora seja tecnicamente possível que o coronavírus esteja no ar em circunstâncias limitadas, não está confirmado que isso esteja realmente acontecendo. Para citar a OMS, “a transmissão por via aerossol de curto alcance, particularmente em locais internos específicos, como espaços lotados e com ventilação inadequada, não pode ser descartada”.

Além dessas situações, há um outro lugar onde os pesquisadores reconhecem que o SARS-CoV-2 pode estar no ar: em certos ambientes médicos ou hospitalares. Existem diversos procedimentos acontecendo em uma sala de emergência ou unidade de terapia intensiva que causam a dispersão do vírus pelo ar, como aspiração das vias aéreas, realização de reanimação cardiorrespiratória, inserção / remoção de tubos respiratórios, uso de aparelhos para broncoscopia (um procedimento que envolve colocação uma câmera nos pulmões), entre outros.

Enquanto mais estudos são necessários para provar se essa via de contágio é realmente efetiva e quais medidas preventivas serão necessárias para reduzir a chance de infecção, por ora o que deve ser feito é evitar os modos de transmissão já conhecidos. Ou seja, lavar as mãos, usar uma cobertura de pano para o rosto e praticar o distanciamento social.

Revisado clinicamente em Setembro de 2020.

Fontes:

Organização Mundial da Saúde. 09 de Julho de 2020. “Transmissão do SARS-CoV-2: implicações para as precauções e prevenção de infecção.”

NPR One. 11. de Julho de 2020. “Perguntas frequentes sobre o Coronavirus: Como me protejo se o Coronavirus puder permanecer no ar?”

Centro Nacional de Informações Biotecnológicas dos Estados Unidos (NCBI). 07 de Maio de 2020. “SARS-CoV-2: transmissão por ar em ambientes laboratoriais e clínicos.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 22 de Junho de 2020. “Persistência da Síndrome Respiratória Aguda Grave Coronavirus 2 em Suspensões de Aerossol.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 07 de Janeiro de 2016. “Transmissão Básica e Controle de Infecção – Precauções”.