As crianças são realmente ‘super disseminadoras’ da COVID-19?

By 23 de setembro de 2020Covid 19

Logo no início da propagação global do coronavírus, pesquisadores descobriram que a idade era um fator de risco para casos mais graves da doença. E embora as crianças não estivessem imunes, eram menos propensas a desenvolver sintomas ou ficar muito doentes. Mais recentemente, no entanto, um par de estudos sugeriu que os pequenos, além de serem ‘propagadores silenciosos’ do SARS-CoV-2, também seriam uma possível força motriz por trás da pandemia.

Mas será que este cenário é realmente correto? As crianças são ‘super disseminadoras’ e estão transmitindo a COVID-19 silenciosamente? O que a pesquisa realmente mostra?

O Dr. William Raszka, especialista pediátrico em doenças infecciosas do centro médico acadêmico da Universidade de Vermont, ajuda a responder a essas perguntas e dar sentido ao dilúvio de informações em andamento.

Avaliando as evidências

Às vésperas da reabertura das escolas em diversos estados brasileiros, muitos pais buscam respostas, mas neste momento essas devolutivas são difíceis de encontrar. Contudo, um olhar mais atento sobre o que os pesquisadores fizeram pode fornecer algumas pistas, de acordo com o Dr. Raszka.

Considere o estudo realizado em julho de 2020 pela Coreia do Sul e publicado no Emerging Infectious Diseases do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Para o ensaio, os pesquisadores analisaram 10.592 contatos domiciliares de pessoas com casos confirmados de COVID-19 grave. Os resultados mostraram que as famílias com crianças entre 10 e 19 anos de idade tinham a maior taxa (18,6%) de infecção entre outros membros da família.

Apesar disso, a equipe por trás do estudo divulgou a seguinte informação: “não foi possível determinar a direção da transmissão”.

Isso é importante, porque sem saber quem infectou quem é impossível dizer se as crianças foram as responsáveis pelo contágio ou vice-versa.

Com a dúvida pairando no ar, cientistas da Coréia do Sul realizaram uma nova pesquisa de acompanhamento em agosto de 2020, publicada online no periódico médico Archives of Disease in Childhood. O estudo, maior de seu tipo até agora, incluiu 107 crianças com teste positivo para COVID-19. Os resultados, no entanto, foram surpreendentes. Houve apenas um caso em que o SARS-CoV-2 passou de uma criança para outro membro da família. O evento envolvia uma garota de 16 anos que acabara de retornar do Reino Unido e infectou sua irmã mais nova, mas não seus pais.

Outros estudos na Suíça, China, França e Austrália também examinaram mais de perto a direção da transmissão. E o que os resultados parecem apontar é que as crianças têm menos probabilidade de espalhar COVID-19 que os adultos.

“De modo geral, os dados são consistentes e sugerem que os adultos é que estão causando a pandemia, não as crianças”, disse Raszka. “Elas simplesmente não parecem estar transmitindo tanto quanto poderia se imaginar, principalmente os pequenos.”

Mas o debate continua

Não obstante, recentemente dois grandes estudos reacenderam o debate. O primeiro sugere que as crianças são ‘propagadoras silenciosas’ da doença. Esta pesquisa vem novamente da Coreia do Sul e foi divulgada em agosto de 2020 pela JAMA Pediatrics. O ensaio incluiu 91 crianças que estavam em hospitais ou instalações de isolamento após terem testado positivo para COVID-19. Os resultados apontaram que 22% delas eram assintomáticas durante todo o período de observação (16 dias).

Mas Raszka diz que a metodologia utilizada nesta pesquisa foi incorreta. Isso porque as crianças neste estudo, por definição, já tinham testado positivo para COVID-19. Separar a amostra para só avaliar quem foi infectado com o SARS-CoV-2 desviou os resultados. Veja a diferença. Outro estudo de agosto de 2020 publicado na JAMA Pediatrics envolvendo 33.041 crianças examinadas por médicos em San Francisco, não apenas para COVID-19, mostrou que apenas 0,65% dos participantes eram assintomáticos em relação ao coronavírus.

No estudo da Coreia do Sul, os pesquisadores também utilizaram o teste PCR (proteína c-reactiva) para observar como os níveis de RNA, material genético que compõe o vírus da COVID-19, mudam ao longo da infecção. Eles descobriram que o RNA viral era detectável no nariz de crianças assintomáticas por uma média de 14,1 dias.

Mas um segundo olhar ao estudo mostra que os dados do PCR vieram de apenas 29 crianças, não de todos os participantes. Além disso, os pesquisadores fizeram várias rodadas do teste, permitindo-lhes detectar pequenas quantidades de RNA.

“Eles estavam detectando os menores fragmentos de material. Por definição, essas pessoas não são infecciosas”, explica Raszka.

Outro estudo sugere que as crianças são ‘super disseminadoras’

O segundo ensaio que ganhou as manchetes recentemente vem de pesquisadores da Universidade de Harvard. O estudo de agosto de 2020 publicado no The Journal of Pediatrics incluiu 192 crianças com sintomas ou exposição conhecida a COVID-19. Onze delas eram assintomáticas no momento do teste e apenas três testaram positivo.

Os pesquisadores usaram o PCR para observar a carga viral em bastonetes utilizados nas coletas nasais. Eles descobriram que a concentração do vírus em crianças pré-sintomáticas nos primeiros dias de infecção era maior do que em adultos que usavam ventiladores para COVID-19 grave em unidades de terapia intensiva.

Mas há de se ter cuidado ao tirar conclusões precipitadas sobre esses resultados, aconselha Raszka. É impossível tirar conclusões sem saber quão altas estavam as cargas virais nesses adultos durante os primeiros dias de infecção, quando poderiam estar andando e contaminando outros.

“Quase todos concordam que a quantidade de material viral detectado no nariz é maior no início da doença. A concentração, no entanto, diminui com o tempo”, diz Raszka. “Comparar crianças dentro de dois dias do início dos sintomas com adultos que podem ter chegado a 26 dias de infecção é um equívoco.”

No fim das contas, Raszka diz que esses dois estudos mais recentes não acrescentam muito ao debate. Mesmo os autores reconhecem que não puderam determinar o caminho da transmissão, de adulto para criança ou vice-versa.

“Houve muito exagero sobre esses dois estudos”, diz Raszka. “Quando eu olho para eles, o que me dizem é que as crianças, assim como os adultos, têm o vírus no nariz no início da doença. Apenas isso.”

O que é carga viral e por que é importante

A carga viral se refere à quantidade de partículas de vírus detectáveis ​​em uma amostra de fluido corporal, como sangue ou secreções nasais. Concentrações mais altas foram associadas a doenças mais graves e ao aumento da probabilidade de transmissão, mas não necessariamente.

A transmissão viral também tem a ver com Infectividade, ou seja, se um vírus ainda está ativo ou não a ponto de poder estabelecer a infecção.

“Os dados do PCR não dizem nada sobre a infectividade”, diz Raszka. “Contudo, as diretrizes do CDC indicam que pessoas contaminadas não são consideradas infecciosas 10 dias após o início dos sintomas, desde que tenham tido melhora dos mesmos e não tenham febre”.

Nos casos em que as crianças transmitiram o SARS-CoV-2, o que se sabe é que as mais velhas foram vetores mais efetivos que as mais novas, mas ninguém descobriu ainda o porquê. Pode ser que os pequenos não tussam com tanta força, ou simplesmente têm pulmões menores, acrescenta Raszka.

As crianças realmente deveriam voltar a escola?

A decisão de mandar seus filhos ou não de volta à escola é dos pais ou responsáveis e também depende de seus fatores de risco pessoais para COVID-19, transmissão comunitária em sua área e as medidas de segurança que a instituição de ensino implementou para conter a propagação da doença.

Dito isso, vale lembrar que as crianças se beneficiam por estarem no ambiente escolar, principalmente aquelas que dependem de programas especiais, de acordo com Raszka. “A escola é importante para o desenvolvimento emocional, acadêmico e físico dos pequenos, além de ser um fator chave para lidar com as desigualdades sociais.”

Para as instituições de ensino abrirem com segurança, medidas de proteção adequadas precisam estar em vigor, especialmente em áreas onde a transmissão de COVID-19 é alta. É necessário usar máscaras, higienizar as mãos, respeitar o distanciamento social em todos os ambientes e momentos, além de realizar certificações constantes para que as crianças doentes fiquem em casa.

“Temos que fazer nossa parte para prevenir a propagação da doença, independente das decisões políticas e sociais de reabertura”, diz Raszka. Seja na escola, em casa ou na rua, as medidas preventivas não devem ser abandonadas.

Revisado clinicamente em Setembro de 2020.

Fontes:

Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Agosto de 2020. “Preparando administradores de escolas de ensino fundamental e médio para um retorno seguro no outono de 2020.”

Park YJ, Choe YJ, Park O, et al. Emerging Infectious Diseases. Julho de 2020. “Rastreamento de contato durante o surto de coronavírus, Coreia do Sul, 2020.”

Kim J, Choe YJ, Lee J, et al. Archives of Disease in Childhood. 07 de Agosto de 2020. “Papel das crianças na transmissão domiciliar de COVID-19.”

Danis K, Epaulard O, Bénet T, et al. Clinical Infectious Diseases. Volume 71. Fevereiro de 2020. “Cluster de Coronavírus (COVID-19) nos Alpes Franceses.”

Han MS, Choi EH, Chang SH, et al. JAMA Pediatrics. 28 de Agosto de 2020. “Características clínicas e detecção de RNA viral em crianças com coronavírus 2019 (COVID-19) na República da Coreia.”

Sola AM, David AP, Rosbe KW, Baba A, Ramirez-Avila L, Chan DK. JAMA Pediatrics. 25 de Agosto de 2020. “Prevalência de infecção por SARS-CoV-2 em crianças sem sintomas de doença por coronavírus 2019.”