Como passar pelas mudanças causadas pela pandemia

By 27 de maio de 2020Covid 19

A coach executiva Katie Byrne explica como os estágios de mudança se aplicam a COVID-19.

Nos últimos meses, você provavelmente teve sua parcela de altos e baixos. Em um minuto, sentia total controle sobre a vida mesmo em quarentena, mas, no próximo, ansiava pelo modo como as coisas eram antes. Essas flutuações são normais e talvez até se surpreenda ao saber que o que está sentindo é uma forma de luto.

Os estágios do luto podem ser explicados como um processo de ajuste que vem com uma grande mudança ou perda. Para transformar sua perspectiva e buscar uma visão mais positiva da vida atual, é preciso reconhecer seus sentimentos e as maneiras pelas quais está lidando com a dor.

Com o objetivo de te auxiliar nesta jornada a Sharecare conversou com Katie Byrne, coach executiva e fundadora da consultoria EQUALibrium Group, que tem como foco os estágios de mudança, o luto e estratégias para lidar com essas situações. Aqui ela falará um pouco sobre a incerteza que a pandemia trouxe, mas também sobre algumas vantagens que podem surgir deste momento desafiador.

Esta entrevista foi editada e condensada.

Conte-nos sobre o modelo de mudança. Como isso se aplica à vida agora?

Tudo mudou e isso é realmente complexo de se entender. No momento, estamos passando por transformações na rotina da casa, em nossos empregos, com a família, escola de nossos filhos e muito mais. São tantas modificações que é preciso algo em que se apoiar. E o modelo tem esse papel.

Quando meus colegas e eu ensinamos os elementos da mudança para executivos, utilizamos os estágios de luto delineados pela psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross em seu livro On Death and Dying (em português, Sobre a Morte e o Morrer). Nós adaptamos nossa própria versão, que é um pouco mais curta, mas ainda aplicável. Nos concentramos nas etapas de Negação, Resistência, Exploração e Aceitação e em como essas fases podem acontecer de maneira não linear.

Algumas pessoas vão começar em Negação. É comum, mas nem sempre isso acontece. Outros já iniciam o processo no estágio de Exploração, principalmente os empreendedores. No entanto, com o passar do tempo, esses indivíduos podem passar à Negação e depois à Resistência.

No que diz respeito à pandemia, acho que estamos passando por cada uma dessas etapas todos os dias. E sinto que é importante e realmente útil reconhecer isso, porque temos a oportunidade de fazer diferente amanhã. Mas, sim, saltamos entre a negação, resistência, exploração e aceitação diariamente.

Você pode falar sobre os quatro estágios separadamente?

A Negação é baseada no medo e envolve pensar que algo simplesmente não está acontecendo. Um exemplo disso é quando alguém nos fala “Se fizer tal coisa o resultado será este” e contra argumentamos dizendo “isso não vai ocorrer”.

É comum existir uma oscilação entre a Negação e a Resistência, mas essas fases são distintas. Enquanto a primeira se baseia na incredulidade, a segunda se assemelha a objeção (ou seja, eu reconheço que um problema existe, mas prefiro continuar agindo da mesma maneira que antes). “Eu não quero essa mudança. Vou continuar fazendo do meu jeito. Por que tenho que fazer diferente?”

A exploração significa tentar maneiras diferentes de realizar as coisas. Você avalia os aspectos positivos que surgem com cada novo caminho que se descortina. Por exemplo: “Olha, agora que estamos em quarentena, consigo me comunicar com os outros de maneiras que nunca pensei antes”. O problema com esta etapa é que ela pode ser cansativa porque você experimentará tudo o que estiver à disposição, o tempo todo.

Já a aceitação é mais simples. Você pensa: “Mudou, e descobri que sou bom nisso. Apesar de ser novidade conseguirei resolver”.

Qual sua sugestão para aqueles que estão presos em algum estágio?

Normalmente ficamos presos na fase da Resistência. Na realidade, temos dificuldade em identificar que estamos nessa etapa porque ela nos traz certo conforto diante uma situação, muitas vezes, complexa. Quanto mais conversas tiver em relação ao que está acontecendo e mais ações puder implementar para tentar avançar, melhor.

Esse estágio é quando nos sentimos sob ataque e nos voltamos para comportamentos antigos. Intimamente percebemos que existem coisas que não funcionam para nós, mas quando estamos em Resistência, voltamos a esses hábitos porque eles são conhecidos e nos deixam bem.”

Pessoalmente, quando noto que estou em Resistência, reflito sobre aquilo que tenho feito. Eu compreendo que me dei um ‘mimo’, agindo de forma habitual e previsível. Mas também sei que provavelmente isso não será bom para mim, então penso em formas de não repetir essa mesma conduta numa próxima ocasião.

Como está lidando com a pandemia?

Procuro perceber o quanto somos adaptáveis ​​e mutáveis. Noto que estamos nos reconectando com a família e amigos e que estamos pensando em novas maneiras de fazer as coisas. Tudo isso é muito positivo e produtivo.

Essa experiência está quebrando paradigmas para você?

Sim, vejo que estamos todos nos unindo. Quando saio às 18:00 e ouço outros ao meu redor batendo palmas, sinto algo poderosamente forte nisso.

Definitivamente há a Negação, Resistência, Exploração e Aceitação, todos esses sentimentos acontecendo, mas essa união, essa conexão e empatia que tem renascido me dá a certeza de que sairemos melhores disso, assim como fizemos com outras tantas tragédias que nos assolaram.

Revisado clinicamente em Maio de 2020.

Fontes:

Fundação Elisabeth Kübler-Ross. “Os cinco estágios da dor.”