Esteroide comumente utilizado pode ser efetivo no tratamento contra a COVID-19

By 22 de junho de 2020Covid 19

Um medicamento relativamente barato e seguro, frequentemente utilizado para tratar uma série de condições inflamatórias, trouxe esperança na luta contra o coronavírus.

Em um anúncio recente, pesquisadores do Reino Unido divulgaram algumas das descobertas preliminares do estudo RECOVERY (em inglês: Randomized Evaluation of COVID-19 Therapy) que tem como objetivo avaliar dentre medicações existentes, quais poderiam ser utilizadas como possíveis tratamentos para a COVID-19.

Segundo as pesquisas realizadas até o momento, a dexametasona se mostrou efetiva na redução das taxas de mortalidade entre pacientes graves e submetidos à ventilação ou oxigênio.  “A dexametasona é o primeiro medicamento que demonstra ser promissor em casos de sobrevida relacionados ao Sars-CoV-2. Esse é um resultado extremamente bem-vindo”, disse o pesquisador-chefe Peter Horby, que também é professor de doenças infecciosas emergentes no Departamento de Medicina de Nuffield, na Universidade de Oxford, em um comunicado à imprensa.

“O benefício da sobrevida é claro naqueles pacientes que estão doentes o suficiente para necessitar de tratamento com oxigênio. Também estamos falando de uma redução real da mortalidade entre aqueles que necessitam de ventilação mecânica”, acrescentou o Dr. Horby.

Mas para que serve a dexametasona?

A dexametasona é um esteroide utilizado para aliviar inflamações e tratar doenças que requeiram ação imunossupressora como a artrite reumatoide, alergias graves, asma e câncer, além de alguns distúrbios da pele, sangue, rins, olhos, tireoide e intestinos.

Como ela poderia ser benéfica contra a COVID-19?

A maioria das pessoas infectada com o novo coronavírus se recupera sem a necessidade de oxigênio ou ventiladores. Porém, aproximadamente 15% dos casos resultam em doenças e complicações graves, incluindo pneumonia e problemas respiratórios. Outros 5% desenvolverão consequências ainda mais sérias, como insuficiência respiratória. As descobertas, no entanto, apontam que a dexametasona poderia ser efetiva nestes casos.

Um vírus como o SARS-CoV-2, causador da COVID-19, também é capaz de levar a inflamações que desencadeiam a liberação avassaladora de proteínas chamadas citocinas. Normalmente, as citocinas ajudam a coordenar a resposta do corpo à infecção. Mas, em alguns casos, essa resposta fica fora de controle, causando mais danos do que benefícios. A dexametasona também pode ajudar esses pacientes.

 O que os pesquisadores encontraram?

O ensaio, divulgado sem dados completos ou avaliação de pares, faz parte do estudo clínico randômico RECOVERY, que investiga outros potenciais tratamentos contra a COVID-19 em mais de 11.500 pacientes de 175 hospitais no Reino Unido.

Para a pesquisa da dexametasona, em particular, os cientistas incluíram um total de 2.104 pessoas. Esses pacientes foram aleatoriamente designados para receber uma dose baixa (6 mg) do esteroide diariamente, por um período de 10 dias. Em seguida, eles foram comparados a um grupo controle de 4.321 pacientes que receberam atendimento típico.

Após monitorar esses indivíduos por 28 dias, os pesquisadores descobriram que o tratamento com a dexametasona reduziu as mortes em um terço entre os pacientes em ventilação mecânica e 20% entre aqueles que estavam fazendo uso do oxigênio. Eles observaram ainda que a droga não parece trazer benefícios para casos menos graves.

“Esses resultados do estudo RECOVERY, ainda que rudimentares, são muito claros. A dexametasona reduz o risco de morte entre pacientes com complicações respiratórias graves”, afirma Martin Landray, professor de medicina e epidemiologia no Departamento de Saúde da População da Universidade de Nuffield de Oxford, em um comunicado à imprensa. “A COVID-19 é uma doença global e é fantástico que exista uma provável opção de tratamento para reduzir a mortalidade em casos de maior complexidade e que seja acessível e disponível em todo o mundo”.

Quais outros tratamentos estão em avaliação?

O estudo RECOVERY também investiga a eficácia dos seguintes medicamentos como possíveis tratamentos contra a COVID-19:

  • Lopinavir + Ritonavirque: Destinado, em combinação com outros agentes antirretrovirais, ao tratamento de infecção por HIV;
  • Azitromicina: Medicamento que faz parte do grupo dos antibióticos, utilizado em uma ampla gama de tratamentos, como na terapia de infecções do trato respiratório, infecções sexualmente transmissíveis – IST’s e outras doenças;
  • Tocilizumabe: Tratamento anti-inflamatório injetável, indicado para casos de artrite reumatoide ativa;
  • Plasma convalescente com anticorpos SARS-CoV-2: Coletados de pessoas que se recuperaram da COVID-19.

A pesquisa também explorou os possíveis benefícios da hidroxicloroquina. Os pesquisadores descobriram, no entanto, que a droga, utilizada para tratar artrite, malária e lúpus, não é benéfica para pacientes hospitalizados com COVID-19 e imediatamente interrompeu estudos mais aprofundados.

Depois de avaliar um total de 1.542 pacientes tratados com a hidroxicloroquina e compará-los com um grupo controle de 3.132 pessoas que receberam tratamento padrão, os cientistas não encontraram diferenças nos resultados, mesmo após 28 dias.

Revisado clinicamente em Junho de 2020.

Fontes:

Universidade de Oxford. “Dexametasona de baixo custo reduz a morte em até um terço em pacientes hospitalizados com complicações respiratórias graves de COVID-19”.

Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. “Dexametasona”.

Plataforma UpToDate. “Educação do paciente: doenças em grandes altitudes (incluindo doenças nas montanhas) (além do básico)”.

Universidade de Oxford. “Este ensaio clínico nacional visa identificar tratamentos que podem ser benéficos para pessoas hospitalizadas com suspeita ou confirmação de COVID-19”.

Universidade de Oxford. “Nenhum benefício clínico do uso de hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com COVID-19”.

BBC News Brasil. 17 de Junho dde 2020. “Coronavírus: o que é a dexametasona e por que não pode ser tomada sem indicação médica”.