O que precisa acontecer para o país flexibilizar as medidas de isolamento

By 13 de maio de 2020Covid 19

Todos os dias sentimos o desejo de voltar à normalidade, no entanto, está cada vez mais claro que, à medida que a pandemia e o número de mortes relacionadas a COVID-19 avançam, esse anseio não se concretizará tão cedo. Enquanto o Ministro da Saúde, Nelson Teich, elabora uma nova diretriz para estados e municípios que queiram adotar formas mais brandas da quarentena ou mesmo abandoná-las, especialistas no assunto têm hesitado muito em se comprometer com uma data próxima para que isso aconteça. Então, o que é preciso para tornar a reabertura uma realidade?

Todos estão procurando respostas para essa pergunta agora. E para ajudar a elucidar algumas das dúvidas que possam estar surgindo, compilamos uma série de medidas que foram adotadas em outras partes do mundo antes do processo de flexibilização da quarentena. Os seguintes itens representam opiniões de diversos especialistas e não necessariamente são regras para que o relaxamento das restrições aconteça. Talvez, nem todas elas devam ser cumpridas, mas com certeza são um norte a ser considerado.

Reduzir o número de infecções

Com base em extensas análises realizadas com dados de surtos anteriores na China, uma das poucas ações que podemos adotar em uníssono para superar a pandemia é reduzir a taxa de infecções crescentes (ou seja, “achatar a curva”). É por isso que muitos estados, como São Paulo, estenderam os prazos da quarentena e têm adotado uma postura ainda mais rígida sobre o isolamento social. No Maranhão, por exemplo, a pedido do Ministério Público, a justiça determinou a aplicação do lockdown em São Luís e em outras 3 cidades. A norma tem como objetivo garantir que a restrição do convívio social atinja 80% da população. A redução nos índices de ocupação de leitos, principalmente em UTIs, é um bom termômetro para avaliar a possibilidade de flexibilização, sendo assim, quando a capacidade dos leitos estiver em um índice seguro, a possibilidade de flexibilização será maior.

Manter as restrições atuais até que a COVID-19 diminua

Um estudo publicado na revista médica The Lancet analisou os perigos da infecção em ondas em várias províncias da China. A pesquisa científica apontou que a disseminação do vírus reduziu substancialmente quando medidas de controle foram implementadas, mas que o relaxamento das intervenções antes do tempo resultou em um aumento exponencial na contagem acumulada de casos.

Segundo o American Enterprise Institute (AEI), um estado deve sustentar a redução dos casos de COVID-19 por pelo menos 14 dias antes que quaisquer restrições sejam flexibilizadas. E mesmo assim não há garantia de que isso impedirá uma segunda onda.

Definir diretrizes nacionais

Desde o início da pandemia, muitos estados divergiram em relação a adoção das condutas preventivas recomendadas pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de eles terem autonomia para impor prerrogativas de isolamento, quarentena, interdição de locomoção, restrição de transporte e trânsito em rodovias, uso obrigatório de máscaras e da definição dos serviços públicos e atividades consideradas essenciais, tais decisões locais acabaram criando uma colcha de retalhos de diretrizes.

Esse cenário não é diferente em outros lugares, como nos Estados Unidos. Contudo, países que conseguiram iniciar o processo de reabertura contaram com uma liderança nacional para orientar, desde novas medidas de prevenção até a flexibilização das restrições de forma segura.

Aumentar e melhorar testes e relatórios

Líderes mundiais concordam que é preciso melhorar a velocidade e a disponibilidade de testes. Pessoas com sintomas devem ser avaliadas, diagnosticadas, tratadas e isoladas. Além disso, os casos precisam ser relatados rapidamente por cada estado. Não apenas aqueles sintomáticos, mas também a população em geral. O teste rápido, que avalia se a pessoa teve contato atual ou tardio com o vírus pode auxiliar no controle de incidência de casos em determinada região, facilitando as diretrizes para possíveis aberturas.

Desenvolver e implementar um sistema de rastreamento efetivo

O sucesso do “achatamento da curva” na Coréia do Sul deve-se em grande parte ao uso de tecnologia, como o GPS do celular, para rastrear a localização de pessoas que testaram positivo para a COVID-19, a fim de alertar outros que tiveram contato com eles a aumentar as medidas de prevenção.

De acordo com a NBC News, alguns epidemiologistas acreditam que uma implementação similar poderia ser positiva e, com o tempo, ajudaria a determinar o momento certo para o início da flexibilização. Contudo, isso é ainda muito controverso, especialmente devido a preocupações com a privacidade individual.

Abastecer os hospitais

Os profissionais de saúde devem ser protegidos e sua segurança e apoio precisam ser uma prioridade. O governo tem que fornecer a eles os equipamentos de proteção adequados às necessidades atuais. Além disso, os hospitais devem poder tratar e manter os cuidados com os pacientes sem entrar no modo de crise.

Proteger os mais vulneráveis

Expandir o alcance de recursos para aqueles que estão em perigo se estiverem infectados, também deve ser priorizado, mesmo se as restrições forem flexibilizadas para pacientes menos vulneráveis.

Desenvolver uma vacina

Como o estudo recente, publicado na revista The Lancet explica, o isolamento resulta em uma menor propagação do vírus. Contudo, quando isso acontece, ficamos tentados a flexibilizar as medidas de quarentena e demais restrições. Mas a reabertura neste momento pode trazer efeitos adversos, tanto à saúde quanto à economia. Isso por que simplesmente voltar as antigas regras de interdição e confinamento, provavelmente, não será mais suficiente para conter uma nova onda. Talvez um esforço ainda maior seja necessário. Portanto, devemos encontrar um equilíbrio entre reabrir e manter a disseminação em queda por meio de ações preventivas e de “achatamento da curva”. Essa é a melhor estratégia até que uma vacina seja amplamente distribuída.

Apesar do momento conturbado, pode ser reconfortante lembrar que toda a iniciativa pública e privada está trabalhando em conjunto para que a maior parte da população permaneça em casa e que isso não vai mudar, a menos que seja considerado seguro por vários especialistas, flexibilizar as restrições. Enquanto isso não acontece, muitos terapeutas têm recomendado que neste período de incertezas, as pessoas se concentrem naquilo que podem controlar. Esse é um esforço válido para aliviar a mente e o estresse durante a quarentena.

Experimente também técnicas de respiração profunda, meditação ou elabore um pequeno plano de condicionamento físico que possa ser feito em sua casa para que tenha algo em que se concentrar. E lembre-se, estamos juntos nessa.

Revisado clinicamente em Maio de 2020.

Fontes:

Coletiva do governo federal. 22 de Abril de 2020. “Vamos desenhar uma diretriz que possa dar suporte a estados e cidades para que desenhem seus programas em relação ao isolamento e ao distanciamento.”

American Enterprise Institute (AEI). 29 de Março de 2020. “Resposta nacional ao coronavírus: um roteiro para a reabertura”.

Sciencemag.org. 07 de Maio de 2020. “Uma investigação sobre medidas de controle de transmissão durante os primeiros 50 dias da epidemia de COVID-19 na China”.

Entrevista do governador João Dória ao SP2. 09 de Abril de 2020. “Se não elevarmos isolamento para mais de 60%, tomaremos medidas mais rígidas”.

Revista Exame Brasil. 05 de Maio de 2020. “Lockdown em São Luís pode ser ainda mais rígido, diz governador.”

The Lancet. 08 de Abril de 2020. “Transmissibilidade e severidade da primeira onda da COVID-19 na China fora de Hubei após medidas de controle e segunda onda planejamento de cenário”.

Nathan Victor. Plenário do STF (Supremo Tribunal Federal). 15 de Abril de 2020. “STF decide que Estados e municípios têm autonomia para impor isolamento”.

Luis Barrucho. BBC News Brasil. 24 de Abril de 2020. “Brasil é um dos países que menos realiza testes para covid-19, abaixo de Cuba e Chile”.

Tanya Lewis. Scientificamerican.com. 06 de Abril de 2020. “Quando podemos suspender as restrições à pandemia de coronavírus? Não antes de tomar estes passos”.

The New York Times. 23 de Março de 2020. “Como a Coréia do Sul achatou a curva”.

Denise Chow. NBC News. 13 de Abril de 2020. “Escapando do bloqueio do coronavírus com teste e rastreamento”.

Sara Morrison. Vox.com. 16 de Abril de 2020. “Apple e Google são heróis problemáticos durante a pandemia”.

James Gallagher. BBC News. 05 de Maio de 2020. “Bloqueio coronavírus: quando terminará e como?”.