Saiba por que é essencial acompanhar as vacinações do seu filho.

By 16 de setembro de 2020Covid 19

As taxas de vacinação despencaram durante a pandemia. Veja por que isso é perigoso e como você pode manter a programação vacinal de seu filho com segurança.

Não é novidade que com a disseminação da COVID-19 muitos pais ficaram assustados em levar seus filhos aos hospitais para realizar as imunizações de rotina. Mas com a reabertura gradual das cidades chegou a hora de arregaçar as mangas e colocar a caderneta de vacinação em dia. Isso porquê crianças (e adultos) não vacinados podem contribuir para a proliferação de diversas doenças evitáveis, muitas delas extremamente perigosas como o Sarampo, por exemplo.

“As pessoas estão considerando que o coronavírus é mais importante e estão se esquecendo das outras doenças e isso é um grande problema”, diz a infectologista pediátrica e professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Dra. Lilian Diniz.

Para que se tenha uma ideia da importância da vacinação, no caso do Sarampo, por exemplo, cada pessoa infectada pode contaminar outras 9 desde que as mesmas estejam suscetíveis. A taxa de transmissão do coronavírus é por volta de 3.

“A última coisa que queremos é um surto de uma doença evitável por vacina além da COVID-19.”, afirma a Dra. Lilian. Essa combinação pode colocar um estresse adicional em hospitais lotados e médicos sobrecarregados. Isso sem contar no aumento de mortes.

É muito importante que os pais tenham em mente, que o medo em pegar o SARS-CoV-2 não pode ser um decisor no que diz a respeito à saúde. Consultórios médicos, clínicas e hospitais são seguros por causa das precauções tomadas pelos profissionais de saúde.

Uma queda preocupante nas taxas de vacinação

É uma tendência mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), medidas de prevenção à COVID-19 afetaram o sistema de vacinação em pelo menos 68 países, deixando cerca de 80 milhões de crianças menores de um ano em risco de contrair doenças imunopreveníveis.

Especialmente preocupante é a vacinação contra a difteria, tétano e coqueluche no Brasil. Cerca de 800 mil crianças estariam sem proteção hoje no país. Segundo o levantamento da OMS, a queda na cobertura vacinal para crianças brasileiras foi de 23 pontos percentuais nos últimos cinco anos. A mesma taxa de redução registrada na Venezuela, país em crise humanitária. Apenas a Líbia, país em guerra, e Samoa, registraram uma queda superior aos nossos índices.

A poliomielite também é uma das doenças que teve uma baixa na vacinação durante a pandemia. Para a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Dra. Aline Bentes, com as quedas nas taxas de imunização existe um risco desse vírus voltar a circular. Em 2018 o país teve 29 casos notificados, mas enquanto houver uma criança infectada, o risco de contrair a doença prevalece. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), se a pólio não for erradicada, podem ocorrer até 200 mil novos casos no mundo, a cada ano, dentro do período de uma década.

Por que as vacinas são cruciais para controlar os surtos

Embora o sarampo e outras doenças evitáveis ​​ainda circulem, elas são muito menos disseminadas devido às vacinas. “As imunizações fazem um ótimo trabalho no controle da transmissão e propagação dessas doenças”, diz a Dra. Tina Tan, membro do conselho da Sociedade de Doenças Infecciosas da América e professora de pediatria da Escola de Medicina da Universidade Northwestern em Chicago.

Isso só é possível devido a imunidade de rebanho explica Tan. Quando uma parcela significativa de uma comunidade é imunizada em relação a uma doença específica, seja ela por causa da vacinação em massa ou de uma disseminação desenfreada anterior,  a imunidade coletiva, como também é conhecida, torna mais difícil uma nova propagação, oferecendo  assim alguma proteção às pessoas que são vulneráveis ​​e não podem receber vacinas, como recém-nascidos, por exemplo.

No caso de muitas doenças infantis, a imunidade de rebanho é obtida por meio de vacinas e isso é muito importante porque certas condições podem ser graves. Sarampo, caxumba e outros podem causar inchaço cerebral, pneumonia, paralisia, surdez e até a morte.

Outra razão para dar ao seu filho a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola é que ela pode prevenir alguns dos piores sintomas da COVID-19. Um artigo publicado na revista mBio da Sociedade Americana de Microbiologia sugere que uma vacinação recente pode prevenir a inflamação pulmonar e a sepse, consequências frequentemente fatais do coronavírus.

Testes de laboratório apontaram que a vacina tríplice viral pode impulsionar o sistema imunológico da criança para criar células que ajudem a combater a inflamação.

Movimento antivacina persistem

As taxas de vacinação em queda permitem que doenças infantis evitáveis ​​saiam das sombras. Mesmo antes da pandemia, já ocorreram surtos preocupantes de doenças, especialmente o sarampo, que antes era controlado pela vacinação. O motivo é que alguns pais relutam em vacinar seus filhos.

Eles hesitam ou se opõem terminantemente a imunização pois estão preocupados com a segurança das vacinas ou sentem que precisam de mais informações sobre elas. Existem ainda aqueles que resistem por razões religiosas ou filosóficas.

A persistência da hesitação vacinal levanta uma questão importante: Será que um número suficiente de brasileiros obterá vacinas contra a COVID-19 em número suficiente para a imunização coletiva quando a mesma estiver disponível?

Um grande problema é a desinformação divulgada por grupos antivacina ou disseminação de fake News em toda a Internet. Os pais que procuram se informar podem clicar e, inadvertidamente, receberem notícias falsas sem nenhuma comprovação científica.

E a crise da COVID-19 pode estar dando a esses grupos uma injeção de ânimo. Uma investigação realizada em junho de 2020 pelo Centro americano de combate ao ódio digital, um grupo sem fins lucrativos que visa combater a desinformação online, apontou que os maiores sites de mídia social antivacina nos EUA aumentaram para quase 50 milhões de seguidores, um crescimento de quase 20% desde 2019.

Ao contrário do que esses grupos costumam afirmar, o atual suprimento de vacina é, na verdade, o mais seguro da história, de acordo com o CDC. A segurança é monitorada ativamente muito tempo depois que as vacinas estão no mercado. No Brasil, A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em parceria com o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde (PNI), monitora a ocorrência de eventos adversos associados ao uso das vacinas registradas em território nacional. Essa parceria é articulada entre a Anvisa, a Secretaria de Vigilância em Saúde e o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz sobre Farmacovigilância de Vacinas e outros Imunobiológicos no âmbito do Sistema Único de Saúde.

A desinformação prospera online

Ainda assim, alguns mitos sobre a segurança das vacinas insistem em surgir. Alguns deles incluem:

  • As vacinas causam autismo: Um pequeno estudo há muito desacreditado da década de 1990 fez uma ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo. Estudos maiores, desde então, desmascararam a teoria.
  • As vacinas causam as doenças que deveriam prevenir: As imunizações não contêm o vírus ativo, então não podem causar doenças. As vacinas estimulam o sistema imunológico a produzir anticorpos para proteger seu filho dos vírus.
  • As vacinas são tóxicas: Elas podem conter pequenas quantidades de formaldeído, mercúrio e sais de alumínio para mantê-las estéreis e funcionarem com eficácia. Mas as quantidades dessas substâncias são tão pequenas que não são prejudiciais. Na verdade, esses produtos químicos são encontrados com mais frequência em alimentos ou ocorrem naturalmente no corpo.

Como manter seu filho seguro e saudável

Agora é a hora de verificar se as vacinas estão em dia. Se as crianças perderam algumas das imunizações propostas no calendário vacinal o ideal é conversar com o pediatra delas. Ele saberá como proceder e os protocolos que deverão ser seguidos. Dessa forma, vocês poderão em conjunto elaborar um plano para atualizar a carteirinha.

Contudo, se além das injeções, seu filho não fez exames que foram prescritos ou avaliações físicas importantes, agende uma nova consulta. O pediatra pode verificar a necessidade de exames específicos, além de liberar ou não as atividades físicas. Se estiver nervoso, pergunte ao médico sobre as precauções de segurança que o consultório adotou. E não se esqueça de utilizar a máscara. Se ainda assim não estiver satisfeito, consulte a possibilidade de vacinação em casa.

Crianças com mais de 2 anos devem usar uma cobertura de pano para o rosto durante a visita ao médico. Se seu filho for de alto risco ou tiver problemas cognitivos ou respiratórios graves, converse com seu pediatra antes da consulta e verifique com ele se existem quaisquer precauções extras a serem consideradas. Se preferir, pergunte sobre a telemedicina e se esta é uma opção no seu caso.

Além de seguir o esquema de vacinação infantil, é importante que todos na família também tomem a vacina contra a gripe. Lembre-se que a gripe nas crianças pode ser mais grave do que a COVID-19 e que a prevenção é crucial, ainda mais para que os hospitais não sejam sobrecarregados durante a pandemia.

Revisado clinicamente em Setembro de 2020.

Fontes:

Faculdade de Medicina UFMG. 24 de Agosto de 2020. “Taxa de vacinação cai em todo o mundo devido à pandemia de coronavírus”.

Jamil Chade. Notícias UOL. 15 de Julho de 2020. “Brasil tem uma das maiores quedas de vacinação no mundo, alerta OMS”.

Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 03 de Fevereiro de 2020. “Vacinas recomendadas para Bebês e Crianças 2020”.

Academia Americana de Pediatria (AAP). 8 de maio de 2020. “A AAP recomenda vacinação conforme as taxas caírem devido a COVID-19”.

Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 31 de Julho de 2020. “Notas em campo: Recuperação na administração de vacinas infantis rotineiras após declínio durante a pandemia de COVID-19”.

Organização Mundial da Saúde. “Recurso especial: Imunização e COVID-19”.

Escola de Saúde Pública Johns Hopkins. 10 de abril de 2020 “O que é imunidade de rebanho e como podemos alcançá-la com COVID-19?”

Jane R. Zucker, MD, Jennifer B. Rosen, MD, et al. The New England Journal of Medicine (NEJM). 12 de março de 2020. “Consequências da sub-vacinação – Surto de sarampo”.

Chephra McKee e Kristin Bohannon. The Journal of Pediatric Pharmacology and Therapeutics (JPPT). Março de 2016.  “Explorando as razões por trás da recusa dos pais em relação a vacinas”.

Sociedade Americana de Microbiologia. 19 de junho de 2020 “A vacina tríplice viral pode proteger contra os piores sintomas da COVID-19”.

Centro americano de combate ao ódio digital (CCDH). 2020 “A indústria antivacina: como a grande tecnologia se fortalece e lucra com a desinformação”.

Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 14 de Janeiro de 2020. “Segurança da vacina”.

Portal Anvisa. “Farmacovigilância de vacinas”.

Escola de medicina da universidade Rush. “7 mitos da vacina”.

Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 30 de Julho de 2020. “Glossário de vacinas e imunizações”.  

Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). 25 de Agosto de 2020. “Vacinas não causam autismo”.

PublicHealth. 19 de Agosto de 2020. “Mitos de vacinas desmascarados.”

HealthyChildren.org. 13 de Agosto de 2020. “Coberturas de pano para o rosto de crianças durante a COVID-19.”