Suspensão dos testes na vacina de Oxford

By 14 de setembro de 2020Covid 19

Os ensaios de fase 3 da vacina foram interrompidos enquanto uma ‘doença potencialmente inexplicada’ é revisada.

Existem mais de 165 vacinas experimentais contra a COVID-19 em desenvolvimento no mundo todo, mas uma em especial, a AZD1222, que está sendo desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, teve seus testes suspensos, de acordo com um comunicado do fabricante do medicamento.

A vacina surgiu cedo como um dos mais fortes candidatos na corrida global para deter a disseminação do SARS-CoV-2, o vírus que causa a doença. A AZD1222 é atualmente uma das três vacinas experimentais em testes de fase 3. A AstraZeneca lançou o estágio final de avaliações em 1º de setembro com planos para utilizá-la em uma amostra de 30.000 adultos saudáveis ​​com diversas origens raciais e étnicas.

Contudo o teste foi interrompido abruptamente em 8 de setembro devido a uma possível reação adversa no Reino Unido, que agora está sob revisão.

“Esta é uma ação rotineira que deve acontecer sempre que houver uma doença potencialmente inexplicada em um dos testes, enquanto ela é investigada, garantindo assim a manutenção da integridade dessas avaliações”, explicou a empresa em nota.

Os primeiros resultados foram promissores

Em testes clínicos em estágio inicial, o AZD1222 desencadeou “respostas imunológicas robustas” entre os participantes. Os resultados altamente esperados, que foram publicados em 20 de Julho de 2020 na revista científica The Lancet, revelaram que a vacina originou um aumento na produção de anticorpos (proteínas no sangue que ajudam a combater infecções) e uma resposta das células T, que auxiliam o corpo a se proteger de doenças.

O estudo randomizado de Fase I e II incluiu 1.077 adultos saudáveis ​​entre 18 e 55 anos. Os cientistas deram a vacina experimental a 543 pessoas. Destes, 533 receberam dose única e 10 duas doses da AZD1222 com um mês de intervalo.

A eficácia da vacina experimental foi avaliada contra uma vacina conjugada meningocócica que serviu como controle. Somente os pesquisadores sabiam qual tratamento os participantes recebiam.

Os ensaios mostraram que 91% dos participantes estudados tiveram resposta de anticorpos neutralizantes com uma dose da vacina. 100% daqueles que receberam a dose de reforço apresentaram contrapartidas imunológicas. Também foi induzida uma resposta das células T em todos os membros monitorados, que foi mantida dois meses após a injeção. Participantes de idade avançada com comorbidades, profissionais de saúde e pessoas consideradas de risco para SARS-CoV-2 ainda estão sendo avaliadas.

Como a vacina funciona?

A vacina de Oxford usa um tipo inofensivo de vírus para fornecer instruções biológicas para o corpo sobre como combater a COVID-19.

O vetor viral utilizado é baseado em uma versão enfraquecida de um adenovírus, conhecido por causar um resfriado comum em chimpanzés e que contém o material genético utilizado pelo SARS-CoV-2 para invadir as células.

As vacinas de vetores recombinantes, como o AZD1222, agem como uma infecção natural, o que significa que podem ser particularmente eficazes no ensino do sistema imunológico sobre como combater microrganismos. Após a imunização, a proteína utilizada pelo SARS-CoV-2 para se proliferar é produzida, o que estimula o sistema imune a atacar a COVID-19 caso algum dia o contágio aconteça.

O vírus que causa o resfriado comum nos chimpanzés foi geneticamente modificado para se “parecer” mais com o SARS-CoV-2. Essas alterações, no entanto, não são capazes de ocasionar infecções em humanos.

Os resultados iniciais do estudo mostraram que o AZD1222 apresenta efeitos colaterais leves a moderados, incluindo dor, sensação de febre, calafrios, dor muscular, dor de cabeça e mal-estar. Contudo, essas reações foram amenizadas com acetaminofeno. Nestes primeiros ensaios, nenhuma reação negativa grave foi relatada.

Quais os próximos passos?

Apesar dos resultados iniciais promissores, os estudos de Fase III ainda devem ser retomados para determinar se o AZD1222 realmente fornece imunidade contra a COVID-19. Além dos Estados Unidos e do Reino Unido, os ensaios também estavam em andamento no Brasil e na África do Sul.

A AstraZeneca anunciou que já celebrou acordos para produção de pelo menos 400 milhões de doses de AZD1222 e tem capacidade para fabricar mil milhões de doses. A empresa ainda espera começar as primeiras entregas até o final de 2020.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos garantiu as vacinas prometendo até US $ 1,2 bilhão para acelerar o programa de desenvolvimento do produto deste fabricante.

A vacina de Oxford é a grande aposta do Ministério da Saúde para imunizar a população contra o novo coronavírus. Nos testes aqui no Brasil, a Unifesp, uma das responsáveis pelo estudo no país, informou que 5 mil voluntários já foram imunizados e que “não houve registro de intercorrências graves de saúde”.

Segundo a AstraZeneca, o “procedimento padrão de revisão” dos estudos foi acionado e a vacinação foi pausada “voluntariamente para permitir a revisão dos dados de segurança por um comitê independente. A farmacêutica informou ainda que está  trabalhando para acelerar a revisão deste único evento, minimizando assim qualquer impacto potencial no cronograma do teste. “Estamos comprometidos com a segurança de nossos participantes e os mais altos padrões de conduta em nossas avaliações “.

Em 06 de Agosto, o presidente Jair Bolsonaro assinou, em cerimônia no Palácio do Planalto, uma medida provisória que libera R$ 1,9 bilhão para viabilizar a produção de 100 milhões de doses da vacina, sendo R$ 1,3 bilhão para pagamentos à farmacêutica, R$ 522,1 milhões para a produção das doses pela Fiocruz/Bio-Manguinhos e R$ 95,6 milhões para a absorção da tecnologia pela Fiocruz.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por autorizar os testes no Brasil, disse ter sido avisada da suspensão e aguarda o envio de maiores informações antes de se pronunciar oficialmente.

Outras vacinas na última fase de testes

Além da AZD1222, outras oito vacinas estão na terceira fase de testes em humanos. São elas:

  • Janssen Pharmaceutical Companies (EUA)
  • Moderna/Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (EUA)
  • BioNTech/Fosun Pharma/Pfizer (Alemanha e EUA)
  • Sinovac (China)
  • Instituto de Produtos Biológicos de Wuhan/Sinopharm (China)
  • Instituto de Produtos Biológicos de Pequim/Sinopharm (China)
  • CanSino Biological Inc./Instituto de Biotecnologia de Pequim (China)
  • Instituto de Pesquisa Gamaleya (Rússia)

Revisado clinicamente em Setembro de 2020.

Fontes:

The New York Times. “Monitoramento de medicamentos e vacinas contra coronavírus”.

Pedro M. Folegatti, MSc; Katie J. Ewer, PhD; Parvinder K. Aley, PhD, et al. The Lancet. Julho de 2020. “Segurança e imunogenicidade da vacina AZD1222 (ChAdOx1 nCoV-19) contra o SARS-CoV-2: um relatório preliminar de um estudo controlado de fase 1/2, único cego, randomizado”.

AstraZeneca. “A vacina contra a COVID-19 AZD1222 mostrou respostas imunes robustas em todos os participantes do estudo de Fase I / II”.

Organização Mundial de Saúde. “Imunologia vacinal”.

AstraZeneca. “A AstraZeneca avança na resposta ao desafio global contra a COVID-19 ao receber os primeiros compromissos para a potencial nova vacina de Oxford”.

Universidade de Oxford. “O teste da vacina de Oxford começa no Brasil.”

AstraZeneca. “A AstraZeneca fornecerá à Europa até 400 milhões de doses da vacina contra a COVID-19 sem lucro”.

Congresso em Foco. 06 de Agosto de 2020. “Governo libera R$ 1,9 bilhão para produção de vacina contra COVID-19 “.

Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS). “Operação Warp Speed da Administração de Trump acelera a vacina AstraZeneca contra a COVID-19 para estar disponível a partir de outubro.”

Globo.com. 09 de Setembro de 2020. “Estudo com a vacina de Oxford é suspenso após efeito adverso grave no Reino Unido”.

CNN Brasil. 09 de Setembro de 2020. “O que se sabe sobre a vacina de Oxford após a suspensão dos testes”.