Você sabe o que é saúde baseada em valor? Nós te explicamos!

23 de março de 2021

 

saúde baseada em valor

A saúde é um termo complexo, que envolve, segundo a OMS, o “completo bem-estar físico, mental e social” dos pacientes. Dada a abrangência do termo, é natural que obter qualidade e excelência na área seja um desafio para a maioria dos gestores. O contexto da saúde baseada em valor pode trazer uma nova forma de visão e gestão.

Nesse modelo, busca-se uma mudança de perspectiva em relação à gestão tradicional de saúde — também conhecida como “saúde baseada em serviços”. Para que essa nova ótica seja alcançada, no entanto, é necessário mudar a maneira como pensamos sobre esse tipo de prestação de serviço.

Neste post, você saberá tudo sobre a medicina baseada em valor: como o conceito surgiu, quais são os benefícios de implementá-lo e quais as mudanças em relação a outras maneiras de gerenciar a saúde. Continue lendo para saber mais.

O que é saúde baseada em valor?

Para compreendermos esse conceito, que é relativamente novo, precisamos voltar a algumas décadas atrás. Sem a sofisticação tecnológica que temos hoje na gestão em saúde, o raciocínio das operadoras era relativamente mais linear e simples. O plano de saúde funcionava exclusivamente como uma seguradora, que cobrava um valor fixo por mês e cobria possíveis procedimentos, consultas e internações necessárias.

Perceba que esse raciocínio é tão enraizado em nossa mente que essa definição pode parecer atual para a maioria dos gestores do setor. No entanto, desde a popularização inicial dos planos de saúde até hoje, muitos dos fatores que influenciam nossa percepção sobre a área mudaram.

Esse modelo é chamado de “saúde baseada em serviços” justamente porque, nele, o produto final da operadora é o serviço em saúde — seja ele uma consulta, uma internação ou uma operação cirúrgica. Os serviços são nivelados horizontalmente, se encaixando em diferentes categorias que custam o mesmo preço à operadora.

Entretanto, esse modus operandi abre espaço para diversos problemas na gestão do setor, que podem ser familiares a qualquer profissional da área. Dentre eles, podemos destacar a dificuldade em promover um planejamento estratégico e o aumento constante nos custos assistenciais.

Esse último é um problema especial devido ao contexto que estamos vivendo. Com o avanço da medicina e das tecnologias associadas a ela, cada vez mais procedimentos e serviços são incorporados ao leque obrigatório das operadoras. O constante movimento de judicialização da medicina apenas piora o quadro, gerando gastos milionários (e por vezes inesperados) às empresas.

Além disso, o nivelamento horizontal de serviços gera um efeito colateral muito relevante na prática: o estímulo à quantidade — e não à qualidade — dos procedimentos. Nesse modelo tradicional, quanto mais uma instituição prestadora de serviço produzir, mais ela recebe da operadora. A médio e longo prazo, essa estratégia leva a um produto final cada vez mais enxuto e que gera, consequentemente, menor valor à rede assistencial.

O conceito de medicina baseada em valor

Na saúde baseada em valor há uma mudança sutil (porém fundamental) nessa linha de raciocínio: nela, o produto final do plano deixa de ser apenas o número bruto de serviços, mas também o valor agregado a eles. A experiência do cliente é um dos principais parâmetros para definir essa geração de valor dos serviços e procedimentos.

Por isso, nesse modelo, o foco da operadora muda. Ao invés de garantir apenas um seguro em caso de acidentes ou agravos em saúde, ela também preza pela qualidade dos serviços e o bem-estar de seus beneficiários.

O surgimento do termo data de 2006, com a publicação do livro “Repensando a Saúde: estratégias para melhorar a qualidade e reduzir os custos”, de Michael Porter. Embora o livro já tenha mais de 10 anos de lançamento, suas palavras continuam muito atuais, e tendem apenas a se intensificar nos próximos anos.

As diferenças em relação à medicina baseada em serviços

É importante frisar que, apesar de ser um conceito em ascensão, a saúde baseada em valor não é oposta à saúde baseada em serviços: podemos dizer que as metodologias são complementares e se adequam mais a determinados cenários.

A medicina baseada em serviços, por exemplo, era atrativa nos tempos em que a saúde era centrada em doenças. Nesse contexto, a qualidade e a experiência do cliente eram colocadas em segundo plano para favorecer uma maior resolubilidade e um maior volume de procedimentos.

A tendência atual da gestão em saúde, no entanto, é migrar para uma medicina centrada no paciente. Nessa metodologia, a medicina preventiva e a promoção da saúde ocupam um espaço maior — e, portanto, temas como uma boa relação médico-paciente e adesão às condutas propostas ganham mais relevância.

Nesse contexto, aderir à medicina baseada em valor auxilia no estímulo à entrega de serviços com uma qualidade crescente pelos prestadores da operadora. Além de tornar o plano de saúde mais atrativo, a metodologia aumenta o contentamento com as consultas e serviços e, a longo prazo, favorece uma maior adesão às estratégias preventivas da operadora.

Quais são os benefícios da saúde baseada em valor?

A saúde baseada em valor está intrinsecamente ligada ao momento histórico que a medicina está passando na atualidade. Ela visa adequar os serviços às necessidades da medicina centrada no paciente e ao contexto das operadoras de saúde em todo o mundo.

Dito isso, destacaremos, a seguir, os principais benefícios que podem ser atingidos com esse modelo. Além de ajudarem os gestores a decidir sobre essa metodologia, essas vantagens também auxiliam no acompanhamento após uma possível implementação. Acompanhe!

1. Aumento da satisfação dos pacientes

A experiência do paciente se torna o foco central da saúde baseada em valor, dessa forma, esse é o principal benefício da metodologia: entregar um serviço mais alinhado com suas expectativas e gerar maior satisfação.

Embora categorizado como apenas um benefício, essa satisfação traz uma série de consequências desejáveis à operadora. O mais direto deles é o aumento na atratividade do plano de saúde, especialmente se levarmos em consideração o “marketing boca a boca”.

A médio e longo prazo, a saúde baseada em valor tende a transformar a operadora em uma prestadora de serviços de maior qualidade — o que faz toda a diferença em um mercado historicamente marcado por entraves entre operadoras e beneficiários.

A redução desses entraves, inclusive, também é um benefício adicional do aumento da satisfação dos clientes. Pacientes mais satisfeitos com seu plano de saúde tendem a judicializar menos a prática médica, deixando de sobrecarregar o setor jurídico das operadoras. Isso reduz tanto os custos com recursos humanos (especialmente advogados) quanto os pagos diretamente nas causas perdidas.

Por fim, a satisfação das pessoas também faz a diferença dentro do consultório e em outros serviços prestados pela operadora: pacientes mais satisfeitos também tendem a aderir melhor às intervenções propostas e utilizar o serviço de maneira mais consciente — por exemplo, desafogando unidades de pronto atendimento ou realizando, de fato, medidas específicas de prevenção de doenças.

2. Melhoria na qualidade dos serviços

Em um mercado competitivo como o da saúde, a qualidade dos processos não é apenas um diferencial — é uma obrigação. Com a medicina baseada em serviços, no entanto, a metrificação dessa qualidade fica em segundo plano: os principais indicadores são baseados em números brutos de procedimentos e consultas, disfarçando possíveis déficits.

Na saúde baseada em valor, somos forçados a encontrar maneiras de medir e melhorar os serviços prestados; afinal, eles são o foco e o objetivo principal das operadoras. Isso nos ajuda a descobrir possíveis falhas de qualidade e a melhorar ofertas que já estavam boas, elevando o nível da empresa a um novo patamar.

3. Antecipação de problemas

Em uma operadora de planos de saúde, estamos a todo momento lidando com a gestão de dados e de riscos. O objetivo é reduzir desfechos desfavoráveis e antecipar os problemas, para conseguir solucioná-los rapidamente.

No modelo de saúde baseada em serviços, isso nem sempre é possível. O nivelamento horizontal das ofertas só apresenta sinais de alarme quando algo está muito errado: como mencionamos, geralmente a qualidade é sacrificada antes de seu número total, devido ao incentivo dessa metodologia na quantidade. Os dados em momentos de crise, inclusive, podem estar falsamente elevados no modelo tradicional.

Na medicina baseada em valor, estamos metrificando os problemas em seus estágios iniciais. Defeitos na cadeia de serviços (como os relacionados a profissionais conflituosos ou materiais faltantes) são detectados rapidamente pela experiência do paciente. Dessa forma, conseguimos agir rapidamente e reverter o quadro antes que ocorram perdas maiores para a operadora.

Além disso, a saúde baseada em valor adiciona uma variável a mais nas métricas da operadora. Como mencionamos, ela não implica necessariamente no abandono total da saúde baseada em serviços; portanto, o número de consultas continua sendo uma variável — que, no entanto, assume uma segunda posição na nova metodologia.

Como contamos com uma métrica a mais, conseguimos prever com melhor exatidão desfechos negativos. A gestão da saúde ganha novas ferramentas para identificar padrões em momentos de crise e antecipar problemas, com mais variáveis adicionadas a essa equação.

4. Melhoria na produtividade

A produtividade é um dos conceitos mais utilizados no empreendedorismo. Apesar de divergências conceituais, podemos defini-la como a razão entre o trabalho e o capital investido em determinado serviço. Na saúde, a produtividade é tão importante quanto em qualquer outra empresa — senão mais, dada a alta demanda do setor.

Em um primeiro momento, a saúde baseada em serviços parece ser ideal para o aumento na produtividade. Seu estímulo a um volume maior de serviços e procedimentos parece atrativo, e, a olhares desatentos, parece traduzir exatamente o conceito de produtividade. No entanto, no contexto da medicina centrada no paciente, menos pode ser mais.

Isso ocorre porque a prevenção e a promoção da saúde requerem serviços mais elaborados e de maior qualidade para serem eficazes. Em um cenário pouco ideal, intervenções médicas podem ser inclusive mais danosas, caracterizando a chamada iatrogenia. Por esse motivo, embora os números na metodologia clássica pareçam tentadores, eles podem ser, na verdade, contraproducentes.

A grande contribuição da saúde baseada em valor para a produtividade, no entanto, é estender o produto final da operadora. Ao dedicar esforços para a satisfação dos pacientes, você atua exatamente onde ela é contratada para atuar — e evita, portanto, que a metrificação da produtividade seja enviesada por um produto final que, na verdade, é apenas um intermediário.

Com métricas mais acuradas, é possível substituir prestadores de serviços de menor qualidade por aqueles que apresentam maior satisfação dos clientes. Com isso, ajustamos de maneira mais fina a rede de colaboradores da operadora, aumentando a produtividade global dos serviços prestados.

5. Redução dos custos assistenciais

A redução de custos é um tema constante na gestão da saúde suplementar. É fato que estamos vivendo um período de aumento nos custos assistenciais, seja pelo avanço da medicina ou por condições que fogem ao nosso controle — como a recente pandemia gerada pela Covid-19, que exigiu um investimento adicional das operadoras para manter seus serviços.

A saúde baseada em valor atua na redução de custos por várias frentes. A mais direta delas é a substituição de prestadores que oferecem serviços de menor qualidade — e que, portanto, consomem muitos recursos da operadora sem, no entanto, atuar efetivamente em seu produto final.

Além disso, a melhoria geral da qualidade dos serviços oferecidos aumenta a captação de novos clientes, ampliando o potencial de crescimento do plano de saúde. Outro fator relacionado, que já mencionamos, é a economia de recursos de setores jurídicos, que estão diretamente associados à satisfação dos pacientes.

A longo prazo, a saúde baseada em valor também está associada a uma melhor eficácia das medidas da medicina preventiva. Esta já se provou ser custo-eficaz, sendo incorporada em diversos protocolos devido ao seu potencial de redução de gastos com complicações e hospitalizações.

Um exemplo rotineiro disso é visto em doenças crônicas, como o diabetes mellitus: em seus estágios iniciais, a doença pode ser controlada com medidas conservadoras e de baixo custo, como a melhoria na dieta e a prática de atividades físicas. No entanto, quando atinge níveis mais avançados, o diabetes está associado a elevados custos assistenciais, como os relacionados a hemodiálises e hospitalizações.

Por fim, a detecção precoce de falhas associadas ao fluxo de serviços também reduz possíveis gastos excessivos com problemas na cadeia de procedimentos. Identificando-os e corrigindo-os precocemente, você garante que esses pequenos problemas não se tornem um risco real para a saúde financeira da operadora.

Quais os desafios da saúde baseada em valor?

Toda renovação de perspectiva requer esforços ativos da gestão para ser eficaz. Com a medicina baseada em valor, não é diferente: o conceito requer mudanças estruturais na administração do plano de saúde e, portanto, apresenta alguns desafios inéditos.

Ao gestor, cabe identificar preventivamente esses desafios e calcular o custo-benefício dessa mudança de perspectiva. Adiantamos, no entanto, que empresas de todo o mundo já têm avaliado o cenário e têm pendido a favor da nova metodologia. A United Healthcare estima que, em 2018, mais de 65 bilhões de dólares foram vinculados, nos Estados Unidos, a contratos baseados em valor.

A seguir, destacaremos os principais desafios relacionados a esse novo modelo. Sabendo deles, você tem maiores ferramentas para decidir se o investimento vale a pena — e para, também, conseguir sobrepô-los na prática. Confira.

Geração de indicadores de qualidade

Na saúde baseada em serviços, há uma vantagem muito explícita: a facilidade de criar e coletar dados que hipoteticamente reflitam o nível do serviço e acompanhá-los ao longo do tempo. O número bruto de procedimentos, consultas e serviços é facilmente mensurável e oferece uma variável quantitativa, fácil de ser comparada.

A saúde baseada em valor, no entanto, leva em consideração uma variável mais subjetiva e propensa a distorções quando não levantada adequadamente. O valor de cada serviço pode ser visto de maneiras diferentes, variando conforme a instituição — e, portanto, precisa ser padronizado e definido com antecedência pela própria operadora, para que seja eficaz.

Além disso, casos que abrem margem para a coleta de variáveis categóricas podem necessitar de um tratamento posterior. Essas variáveis frequentemente precisam ser transformadas em métricas quantitativas para poderem ser comparadas geograficamente e longitudinalmente.

Embora não haja uma metodologia consolidada como única, na prática, algumas se destacam. É o caso, por exemplo, do Net Promoter Score (NPS), que utiliza uma escala de 0 a 10 para mensurar a satisfação do cliente em algum ramo do negócio. A resposta é baseada na pergunta “quão provável é que você recomende o serviço para algum conhecido?”.

Com base nesse questionamento aparentemente simples, é possível categorizar o cliente entre promotor, detrator ou neutro — um agrupamento que tem relação direta com sua satisfação. Como o NPS é um método bem difundido, temos um grande volume de pesquisas e relatos de sua utilização, o que facilita a interpretação.

No entanto, existem distratores que podem interferir na escolha por diferentes métodos de levantamento de métricas. Por esse motivo, é importante estar aberto a novas opções, caso a saúde baseada em valor seja um objetivo da operadora.

Relacionamento com os prestadores de serviço

Em grande parte das operadoras, os prestadores de serviço já são consolidados há anos na rede assistencial. Como classicamente o contrato está atrelado à saúde baseada em serviços, a mudança de perspectiva pode gerar um atrito de comunicação com esses outros agentes assistenciais.

Isso ocorre porque, do ponto de vista deles, a metodologia pode ser enxergada como um aumento no rigor em relação às atividades desenvolvidas. Por isso, implementá-la abruptamente pode levar a uma redução na oferta de prestadores de serviço disponíveis e gerar um desequilíbrio indesejável na rede assistencial.

Existem algumas estratégias que podem auxiliar na harmonia dessa transição. Uma delas é acrescentar a nova métrica como um benefício, e não como uma punição: em um momento inicial, prestadores com uma qualidade maior podem ser recompensados, aumentando o estímulo para a melhoria no serviço.

Além disso, implementar a nova metodologia de forma gradual também pode ser uma boa estratégia. Dessa maneira, mesmo que haja uma insatisfação por parte dos prestadores, é mais provável que a mudança não seja abrupta demais para causar grandes impactos na rede assistencial.

Coleta dos indicadores

Na saúde baseada em serviços, tanto o levantamento quanto o acompanhamento dos indicadores era feito de maneira quase automática; afinal, por se tratar de uma variável tão simples, o número de procedimentos e consultas era facilmente levantado e analisado.

Por outro lado, a medicina baseada em valor demanda um indicador que requer um tratamento inicial — o que dificulta, na análise longitudinal, a sua coleta constante. Por esse motivo, não é apenas um desafio a implementação do sistema, mas também a sua manutenção.

Como grande parte dos benefícios da metodologia vem a longo prazo, é recomendado que ela se mantenha ativa por um período maior antes que sua viabilidade seja reconsiderada. Dessa maneira, o gestor tem a certeza de estar analisando todos os fatores possíveis (em curto, médio e longo prazo) que podem interferir na produtividade do modelo.

Em alguns casos específicos, a manutenção da saúde baseada em valor requer, inclusive, novos hardwares e equipamentos. Um exemplo rotineiro é visto nos painéis de feedback, em que o cliente informa, sem a visão do atendente, qual o seu grau de satisfação com o atendimento. Esse é um exemplo de como a utilização desse método pode ter, também, seus investimentos próprios necessários.

A saúde baseada em valor é um conceito relativamente novo, que contrasta com a estrutura da saúde suplementar de algumas décadas atrás. Nela, ao invés de focarmos no quantitativo, focamos no qualitativo dos serviços — visando oferecer um plano de saúde com maior qualidade e satisfazer de maneira mais eficaz os pacientes.

Como vimos ao longo do conteúdo, essa nova metodologia oferece diversos benefícios, como a economia de gastos, a melhoria na qualidade dos serviços e a satisfação dos pacientes. No entanto, a implementação do modelo também tem seus desafios próprios, como a necessidade de manutenção e o contato com os prestadores de serviço. Por fim, lembre-se que é essencial contar com soluções tecnológicas de empresas que tenham credibilidade no mercado para garantir uma melhor aplicabilidade da metodologia.

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